domingo, 11 de janeiro de 2026

JOAQUIM MANUEL DE CAMPOS AMARAL (4ª PARTE) - O EMPRESÁRIO E HOMEM PÚBLICO

Ao longo da primeira década do século XX Joaquim Manuel e Luciana vêm a sua família crescer com o nascimento de mais quatro filhos, Fernanda em 1901, Susana em 1903, Manuel em 1905 e Amélia em 1907. No mesmo período o bisavô Joaquim adquire uma notoriedade pública crescente como membro destacado da comunidade portuguesa e do meio empresarial carioca. Em 1905 é nomeado presidente da prestigiada ASSOCIAÇÃO DOS EMPREGADOS NO COMÉRCIO DO RIO DE JANEIRO. Em 1907 foi agraciado por D. Manuel II, rei de Portugal, com a Comenda da Ordem Militar de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa e em 1909 com o Foro de Fidalgo Cavaleiro da Casa Real

Joaquim Manuel teve também um papel importante na génese, em 1911, da CÂMARA PORTUGUEZA DE COMÉRCIO, no Rio de Janeiro, da qual fez parte integrante, desde a sua criação.

Nota publicada no jornal O PAIZ de 16.04.1911, dando conta 
da criação da CAMARA PORTUGUEZA DE COMMERCIO

Foi presidente do RETIRO LITERÁRIO PORTUGUÊS, associação cultural fundada em 1855 por elementos da comunidade portuguesa no Rio de Janeiro com o objetivo de divulgar a cultura portuguesa. Na primeira década do século XX o Retiro Literário Português foi responsável pela organização de importantes eventos públicos, com sessões solenes e celebrações, que marcaram a vida cultural carioca. Em 1910, sob a presidência de Joaquim Manuel de Campos Amaral, o Retiro Literário Português, participou nas comemorações do 1º centenário do nascimento de Alexandre Herculano com uma sessão solene, que teve lugar no salão nobre do Real Gabinete Português de Leitura no Rio de Janeiro. O evento foi amplamente noticiado nos jornais do Rio de Janeiro. A sessão foi presidida pelo Conde de Selir, ministro de Portugal.

Nota publicada na GAZETA DE NOTÍCIAS a 28.04.1910 
anunciando a sessão solene comemorativa do 
1º centenário do Nascimento de Alexandre Herculano.

Nota publicada no jornal A IMPRENSA a 29.04.1910, dando conta da sessão solene que teve lugar no dia 28 de abril.



Notícia publicada na revista de atualidades, O MALHO de 07.05.1910, dando conta da sessão solene comemorativa do 1º centenário do nascimento de Alexandre Herculano realizada a 28 de abril no salão do REAL GABINETE PORTUGUEZ DE LEITURA – (…) o comendador Campos Amaral, presidente do Retiro Literário Português, que abriu e encerrou a sessão, com frases eloquentíssimas de patriotismo e fidalga gentileza (...)

Na foto de cima é possível identificar da esquerda para a direita: Cipriano Costa (presidente da Sociedade de Beneficência Portuguesa), conselheiro Costa Ferreira (comandante do cruzador D. Carlos),tenente Dodsworth (representante do presidente da república), conde de Selir (ministro de Portugal e presidente honorário da sessão) e visconde de Ouro Preto (estadista brasileiro), Comendador Campos Amaral (presidente da AECRJ, organizadora do evento) e conselheiro  Barbosa dos Santos (presidente da Agência Financeira de Portugal).


Mas o Bisavô Joaquim foi sobretudo um empresário de sucesso no Rio de Janeiro, tendo feito fortuna no final do século XIX. No livro Impressões do Brazil no Século Vinte de Reginald Lloyd (Edição de 1913 da Lloyd's Greater Britain Publishing Company, Ltd.) é nomeado como um dos um dos vinte e oito mais importantes comerciantes do Rio de Janeiro, juntamente com os seus dois sócios, o irmão João António de Campos Amaral e Fernando Pimentel de Mello, o que atesta a importância das duas casas comerciais de que era proprietário, a Amaral Guimarães & Cia e a Amaral Pimentel & Cia.

“Impressões do Brazil no Século Vinte” de Reginald Lloyd; livro publicado em 1913 pela Lloyd's Greater Britain Publishing Company, Ltd. com o objectivo de divulgar o Brasil como potência económica e industrial
Comerciantes ilustres do Rio de Janeiro
1) Comendador J. F. Guimarães; 2)Luiz Eduardo da Silva Araujo; 3) João António de Campos Amaral; 4) Comendador Joaquim Manuel de Campos Amaral; 5) Fernando Pimentel de Mello; 6) Francisco Portella; 7) Oscar Gustavo Vieira; 8) Alvaro Henrique de Mattos Vieira; 9) Americo Augusto Vieira; 10) Arnaldo Enrico Vieira; 11) José Joaquim Vieira; 12) Carlos Alberto Vieira; 13) O falecido Pedro de Siqueira Queiroz; 14) Antonio Ferreira Gonçalves Braga; 15) Achille Bove; 16) Alfredo de Carvalho; 17) Jacintho Pinto de Lima Junior; 18) J. Baptista de Vieira Machado; 19) José Alves Sardinha; 20) J. P. Souza; 21) Joaquim de Souza Mendes; 22) Luiz d'Almeida Rabello; 23) O falecido José Joaquim de Oliveira Barbosa; 24) Manoel Antunes de Meira; 25) Antonio dos Santos Vianna; 26) José Moreira Barbosa; 27) Fred. Figner; 28) José da Silva Simões

“Impressões do Brazil no Século Vinte” (página 603) de Reginald Lloyd
           Edição de 1913 da Lloyd's Greater Britain Publishing Company, Ltd

Os irmãos Joaquim Manuel e João António de Campos Amaral

Ainda na mesma publicação, a Amaral, Guimarães & Cia, é referida da seguinte forma:

“Amaral, Guimarães & Cia. - Foi esta casa fundada em 1890, pelos sócios Srs. Joaquim Manuel de Campos Amaral e António José de Mattos Guimarães, como solidários, com o capital de Rs. 25:000$000 cada um; e Joaquim Fernandes dos Santos Junior, como comanditário, com o capital de Rs. 50:000$000".

"Durante a vigência deste contrato, que terminou em 1903, teve a casa dois sócios de indústria que se retiraram nessa data, pagos e satisfeitos de seus haveres, e na mesma data foi reformado o contrato social e elevado o capital a Rs. 530:000$000. Foram então admitidos como interessados os Srs. João António de Campos Amaral e Fernando Pimentel de Mello". 

Fernando Pimentel de Mello, sócio dos irmãos 
Campos Amaral na firma "Amaral, Guimarães & Cia"

"Em Setembro de 1905, faleceu o Sr. Antonio José de Mattos Guimarães. Embolsados os seus herdeiros com a quantia de Rs. 400:000$000, continuou a vigorar a firma Amaral Guimarães & Cia., por ter adoptado o sobrenome Guimarães o sócio Sr. Joaquim Manuel de Campos Amaral".

"Em Dezembro de 1905, retiraram-se da casa os dois interessados acima referidos, pagos e satisfeitos de seus haveres; reformou-se o contrato para vigorar até Dezembro de 1910; foi reposto o capital pago aos herdeiros do sócio falecido e passaram a interessados quatro dos empregados mais antigos da casa, os quais se retiraram também, pagos e satisfeitos, em 1910".

"Tendo saído da casa, em 1905, como dissemos acima, os dois interessados Srs. João António de Campos Amaral e Fernando Pimentel de Mello, estabeleceram estes uma casa do mesmo artigo à Rua Chile, 35 e 37, sob a razão social de Barbosa, Amaral & Pimentel, em Janeiro de 1906. Essa sociedade existiu até 1910, quando o sócio sr. Barbosa se retirou da firma, embolsado com Rs. 200:000$000".

"Nesse ano, foi resolvida a fusão das duas casas, ficando a girar sob duas firmas inteiramente distintas, a saber: 

1.    Amaral Guimarães & Cia., composta dos sócios solidários Srs. Joaquim Manuel de Campos Amaral Guimarães, João António de Campos Amaral, Fernando Pimentel de Mello e do comanditário Sr. Joaquim Fernandes dos Santos Junior, sendo o capital social de Rs. 600:000$000;

2.    Amarais, Pimentel & Cia., composta dos sócios solidários Srs. Joaquim Manuel de Campos Amaral Guimarães, João António de Campos Amaral, Fernando Pimentel de Mello e do comanditário Sr. Joaquim Fernandes dos Santos Junior, sendo o capital social de Rs. 400:000$000".

"No período decorrido desde a fundação da casa até 1910, retirou o sócio Joaquim Manuel de Campos Amaral Guimarães, da sociedade, por conta dos seus lucros, o suficiente para adquirir alguns prédios no valor de Rs. 800:000$000, o que também se deu com o comanditário".

"Na vigência da nova sociedade sob a gerência dos sócios Srs. João Antonio de Campos Amaral e Fernando Pimentel de Mello, adquiriram estes para a sociedade o grande terreno e prédio em que funciona a fábrica, ficando o depósito geral e o material de transportes pela quantia de Rs. 150:000$000".

"A sede social compõe-se dos seguintes imóveis:
  1. Rua de S. José 77 e 79, escritório e exposição de ladrilhos, azulejos, metais e louças de barro refractário.
  2. Rua de S. José 72,  secção de encaixotamento e exposição de banheiras e mais artigos de ferro esmaltado.
  3. Rua de S. José 74, exposição e depósito de louças sanitárias e azulejos.
  4. Rua de S. José 78, oficina e exposição de mármores, em grande escala.
  5. Rua do Riachuelo, 130, 132 e 134 depósito geral e fábrica, de propriedade da firma
  6. Rua do Chile 35 e 37, na Casa Amaraes, Pimentel & Cia. há uma grande exposição de todos os artigos acima mencionados".


Casa Amaral Guimarães & Cia, instalações na Rua de S. José 77 e 79 ;
“Impressões do Brazil no Século Vinte” (página 613) de Reginald Lloyd;
      Edição de 1913 da Lloyd's Greater Britain Publishing Company, Ltd


Aspecto do interior das casas comerciais do centro do Rio de Janeiro no início do século XX; loja aberta para a rua, de grande profundidade, com iluminação zenital por claraboia. Os pisos superiores do prédio eram frequentemente residenciais, por vezes com acesso directo a partir da loja.
Área de exposição da Amaral, Guimarães & Cia na Rua de S. José
Área de exposição da Amaral, Guimarães & Cia na Rua de S. José

Rua do Riachuelo, 130, 132 e 134 depósito geral e fábrica - foto de 2013; cem anos depois ainda subsiste o prédio que albergou a fábrica e o depósito geral da firma "Amaral, Guimarães & Cia"  
Detalhe da fachada - Rua do Riachuelo 130, 132 e 134, Rio de Janeiro (foto de 2013)
os baixos relevos da fachada representam o Comércio, à esquerda, e a Indústria, à direita

José Paulo Amaral Rocha de Oliveira, bisneto de Joaquim Manuel de Campos 
Amaral, à porta do nº 130 da Rua do Riachuelo, no Rio de Janeiro em 2013
Em 2013 havia um projecto de preservação do imóvel onde funcionou a fábrica 
e o depósito geral da Amaral, Guimarães & Cia 

"A produção anual da fábrica pode ser avaliada entre Rs. 200:000$000 e Rs. 250:000$000. Tanto a produção como o valor, variam de conformidade com os desenhos fabricados e que mais extração tenham tido durante o ano, visto haver destes uns mais fáceis que outros na fabricação e portanto mais caros ou mais baratos".

"As especialidades do comércio da empresa são: ladrilhos, azulejos, louça sanitária, banheiras de ferro esmaltado e mais artigos sanitários deste gênero, mármores de todas as cores e dimensões, em grosso e em obra, metais para empregos sanitários, aquecedores de água a gás e a álcool, gesso para estuque, cimento branco, preto, comum, amarelo presa rápida, cal hidráulica e do Reino (virgem em pedra), tijolos refratários e mais materiais de construção.”

“Impressões do Brazil no Século Vinte” (página 613) de Reginald Lloyd
Edição de 1913 da Lloyd's Greater Britain Publishing Company, Ltd

O ritmo de novas construções no Rio de Janeiro na viragem do século foi o verdadeiro motor do sucesso das firmas do bisavô Joaquim. As suas firmas forneciam materiais de construção para as principais obras da cidade. A renovação urbana levada a cabo no Rio de Janeiro sobretudo ao longo da primeira década do século XX, é indissociável do sucesso do bisavô Joaquim como empresário. Encontrámos referências á Amaral, Guimarães & Cia, no fornecimento de louças sanitárias para a casa de Rui Barbosa no Rio de Janeiro e de ladrilhos para o Palácio Amarelo em Petrópolis, entre outras.

Louças sanitárias da Amaral, Guimarães & Cia, na Casa Rui Barbosa no Rio de janeiro

Os ladrilhos para o Palácio Amarelo em Petrópolis, construído entre 1894 e 1897, também foram fornecidos pela "Amaral, Guimarães & Cia", como consta em notícia da época

“...os belos ladrilhos que ornamentam o adro, o hall, o patamar da escada e os terraços são da firma Amaral Guimarães e Cia., do Rio de Janeiro, que propôs o preço de 7:250$000 para fornecimento e assentamento do material, inclusive maçame, rodapé, etc., com o qual concordou a Câmara em sessão de 12 de Março de 1896…”

Os mármores e azulejos para as obras de embelezamento levadas a cabo na Igreja de Nossa Senhora da Penha de França, no Rio de Janeiro entre 1900 e 1902, foram fornecidas pela "Amaral, Guimarães & Cia".

Desde o tempo do império que o higienismo como doutrina de orientação das tomadas de decisão no âmbito da saúde pública, vinham a tomar força no Brasil e em particular nas grandes cidades. Em 1864 é atribuído à The Rio de Janeiro City Improvements Company Limited, o monopólio da rede básica do esgoto. Por volta de 1890 mais de 60% dos prédios da cidade, inclusive os subúrbios próximos da central do Brasil, já estavam conectados à rede de esgoto. Contudo os serviços da City, deixavam muito a desejar, apresentando inúmeros problemas e sendo a companhia alvo de críticas constantes pelos higienistas e pela população.

Em 29 de dezembro de 1899, é revisto o contrato da City. Neste novo contrato a empresa assegurava a conclusão das obras dos distritos previstas no contrato de 1890 e a revisão da canalização dos distritos mais antigos, passando o sistema utilizado a ser o de separador absoluto, ou seja, constituído por dois sistemas independentes, um destinado ao escoamento sanitário e outro às águas pluviais. Em contrapartida a City recebia o monopólio de comercialização e instalação dos artigos sanitários. Tal fato gerou uma onda de protestos por parte dos comerciantes de materiais de construção, liderada pelas principais casas do Rio de Janeiro, a tal ponto de justificar uma audiência com o Presidente da República, o Dr. Campos Salles. Joaquim Manuel de Campos Amaral, como representante da Amaral, Guimarães & Cia integrou a comitiva que foi recebida pelo Presidente no dia 12 de janeiro de 1900, tal como foi noticiado no jornal GAZETA DE NOTÍCIAS, do Rio de Janeiro, no dia 13.

As firmas do bisavô Joaquim, no ramo dos materiais de construção, eram das mais prestigiadas do Rio de janeiro, como o atesta a participação das mesmas, na Exposição Nacional de 1908. Inaugurada solenemente a 11 de agosto de 1908, na Urca, no Rio de Janeiro, para comemorar o centenário da Abertura dos Portos às Nações Amigas em 1808 por D. João de Bragança, regente de Portugal.

Medalha comemorativa da Exposição Nacional de 1908, no Rio de Janeiro 

Constituiu um importante palco de promoção do Brasil através dos produtos industriais, agrícolas e artísticos cuidadosamente montados nos pavilhões construídos para o efeito como o Palácio da Indústria, o Palácio dos Estados, o Pavilhão do Distrito Federal e os pavilhões dos diversos Estados. Mostrou o esforço de modernização dos novos serviços públicos municipais e federais em pavilhões temáticos como o do Corpo de Bombeiros, o dos Telégrafos e Correios, o do Café e Cacau, entre outros.

Foi o grande evento final do programa de reforma urbana e sanitária que transformou o Rio de Janeiro na primeira década do século XX. Após o encerramento da Exposição, todos os prédios foram demolidos com exceção do Palácio dos Estados e do Pavilhão das Máquinas. 

Reportagem publicada a 8 de dezembro de 1908 na ILUSTRAÇÃO PORTUGUEZA, 

sobre a inauguração da Exposição Nacional.

As firmas de Joaquim Manuel, a Amaral & Pimentel e a Amaral, Guimarães & Cia participaram na exposição de ladrilhos patente num dos salões do Pavilhão do Distrito Federal, de que fez eco o jornal carioca, O Século, de 15 de agosto de 1908, dia da inauguração das exposições nesse pavilhão.

À esquerda, recorte do jornal O SÉCULO, de 15 de agosto de 1908 - À exposição de ladrilhos concorreram a companhia Edificadora, as casas Martins Amaral & Comp., Barbosa, Amaral & Pimentel, Amaral, Guimarães & Comp. e Attilio Capelli, com um bem feito trabalho de mosaico. 
Á direita, foto de A. Malta, do Pavilhão do Distrito Federal, onde teve lugar a exposição de ladrilhos. 

Da extensa lista de personalidades presentes na cerimónia de inauguração do Pavilhão Manuelino, constava o nome do Comendador Joaquim de Campos Amaral e família.

Recorte do JORNAL DO BRASIL de 2 de agosto de 1908 noticiando a inauguração do pavilhão de Portugal na Exposição

Reportagem publicada a 8 de dezembro de 1908 na ILUSTRAÇÃO PORTUGUEZA, sobre a inauguração da Exposição Nacional.

Em 1911, Joaquim Manuel com toda a sua família, regressou a Portugal, fixando residência em Lisboa, na Quinta das Palmeiras. Até à morte de Luciana em 1916, a sua vida foi um vaivém entre Lisboa e o Rio de Janeiro, pois nunca abandonou a sua atividade no Brasil.

Em 1913, foram dissolvidas, de comum acordo, as firmas Amaraes, Pimentel & Cia (estabelecida à rua do Riachuelo, 35) e Amaral, Guimarães & Cia (estabe-lecida à rua de S. José, 77). Os sócios João António de Campos Amaral e Joaquim Fernandes dos Santos Junior, venderam a sua parte, ficando Joaquim Manuel e Fernando Pimentel de Mello com o passivo e ativo social de ambas as firmas, criando de imediato novas firmas idênticas às extintas, continuando com o mesmo ramo de negócio de materiais de construção, azulejos, ladrilhos, louças e demais material sanitário e fabricação de ladrilhos hidráulicos. Mantiveram as lojas na rua de S. José 77 e na rua do Chile 35.

Recorte do Diário Oficial de 19 de abril de 1913 com o anúncio da dissolução 
das firmas de Joaquim Manuel com seu irmão Joaquim António e da criação 
das novas firmas com Fernando Pimentel de Mello.
 

Joaquim Manuel era um empreendedor e sabia aproveitar as oportunidades de negócio. No final do século XIX e na primeira década do século XX Joaquim Manuel deslocou-se por diversas vezes a Portugal. Os seus conhecimentos e contactos na área da construção civil, permitiram-lhe desenvolver outras áreas de negócio entre os dois lados do Atlântico, nomeadamente a importação para Portugal de madeiras exóticas do Brasil, para a construção civil.

A avó Nanda contava que, as madeiras brasileiras utilizadas na construção do palácio Sotto Mayor em Lisboa e do palácio da Regaleira em Sintra, foram importadas pela firma do bisavô Joaquim. Cândido Sotto Mayor (o primo Candoca como era conhecido pela família) assim como António Augusto Carvalho Monteiro (o Monteiro dos Milhões) eram amigos pessoais de Joaquim Manuel. Todos eles tinham feito fortuna com os negócios no Brasil.

Cândido Sotto Mayor regressou a Portugal na primeira década do século XX, tendo ficado a residir em Lisboa, onde adquiriu, nas avenidas novas o solar oitocentista da família Mayer, que depois mandou demolir, para em sua substituição construir uma moradia com todas as comodidades do “mundo moderno”, e de inspiração francesa, o palácio Sotto Mayor. As obras foram iniciadas em 1902, segundo projecto do Capitão de Engenharia do Exército, António Rodrigues Nogueira a partir de um esboço dos arquitectos Ezequiel Bandeira e Carlos Alberto Correia Monção. A construção foi concluída em 1906, tal como relata a Revista “ilustração Portugueza” da época.

O Palácio Sotto Mayor - "ILLUSTRAÇÃO PORTUGUEZA" - 1906




A relação com António Augusto Carvalho Monteiro, o “Monteiro dos milhões” remonta provavelmente à época em que o avô Joaquim foi para o Brasil havendo provavelmente laços familiares, uma vez que o pai do primeiro e a mãe do segundo eram naturais da mesma terra, Lagos da Beira, Concelho de Oliveira do Hospital.
 
António Augusto Carvalho Monteiro, adquiriu em 1892, aos Barões da Regaleira uma quinta em Sintra, por 25 contos de réis. A construção do palácio teve início em 1904 e estava concluída em 1910.

António Augusto Carvalho Monteiro
 
O palácio segundo projecto do arquitecto italiano Luigi Manini, evoca a arquitectura românica , gótica, renascentista e Manuelina. Está inserido num parque de 4 hectares com jardins magníficos com múltiplas espécies exóticas. lagos e diversas construções enigmáticas, as quais contribuem para o misticismo atribuído à quinta da Regaleira.

Quinta da Regaleira em Sintra
“A quinta integra um magnífico jardim, constituído por árvores exóticas e vegetação abundante, que compõe um curioso percurso de características marcadamente cenográficas. Para este percurso, bem como para o imenso acervo iconográfico que compõe a profusa decoração de todo o palacete, anexos e jardins, pode apontar-se uma linha orientativa de cariz esotérico, conjugada com a simbólica nacionalista dos estilos arquitectónicos neo aqui utilizados. Assim se poderia entender o percurso dos jardins como viagem de teor iniciático, incluindo uma alameda ornada com estátuas de deuses clássicos, uma misteriosa gruta artificial abrigando um lago onde deveriam nadar brancos cisnes sob o olhar de uma mítica Leda, um terraço chamado das Quimeras, e ainda um bosque sombrio, cuja travessia apela a um silêncio introspectivo, proporcionando finalmente a visão da torre do palácio, com larga vista da serra. Particularmente impressionante, neste contexto, é o grande poço, conduzindo progressivamente o visitante até ao fundo, decorado com uma cruz templária e uma rosa-dos-ventos, através de uma descida espiralada; e ainda um túnel estreito, longo e escuro, que liga as profundezas da terra à visão de um terraço alteado e luminoso. A simbólica templária repete-se um pouco por toda a parte, na capela neo-manuelina e nas salas palacianas, que abrigam mobiliário feito por encomenda, tal como um imponente trono entalhado, sempre exibindo simbólica heráldica ou mitológica. A evocação da História de Portugal repete-se nos frisos com os reis portugueses, enquanto uma menção directa ao imaginário maçónico se poderá deduzir do tecto pintado da Sala das Virtudes, onde se encontram as personificações da Força, da Beleza e da Sabedoria. De facto, tem sido aventada a possibilidade de uma eventual filiação maçónica por parte de Carvalho Monteiro, de acordo com o espírito da época e com a inclinação intelectual de uma certa elite nacional. Aqui encontra localização privilegiada o espólio da colecção de artefactos maçónicos de Pisani Burnay, presentemente exposto no palácio da Regaleira.”

Se a Quinta da Regaleira despertou a sua curiosidade, aconselho a leitura  de:
"O espaço sagrado e os Jardins iniciáticos da Quinta da Regaleira", artigo da autroria de José Manuel Anes, publicado em 2010 na revista de "Arquitectura e Educação", nº 3.
"De Lagos da Beira à Regaleira" (texto de Paulo Andrade).


quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

JOAQUIM MANUEL DE CAMPOS AMARAL (3ª PARTE) - A FAMÍLIA NO RIO DE JANEIRO

Em 1890, dezassete anos após ter saído de Portugal e com apenas vinte e oito anos, Joaquim Manuel era já sócio de uma importante firma comercial, a Amaral, Guimarães & Cia, estabelecida na Rua de S. José, no centro do Rio de Janeiro. Era também nessa rua que Joaquim Manuel residia, mais precisamente no número 70. Quase em frente, no número 77, vivia uma viúva, Maria da Encarnação dos Santos Leal, com suas três filhas, Maria José, Amélia e Luciana. É pela mais nova das três, que Joaquim Manuel se apaixona e vem a casar em 1892.

LUCIANA FERREIRA SOUTO, nasceu no Rio de Janeiro no dia 27 de dezembro de 1867, filha de José da Costa Ferreira Souto e de sua mulher, Maria da Encarnação dos Santos Leal. Foi batizada na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Candelária do Rio de Janeiro a 27 de Junho de 1868, tendo como padrinhos Eugénio de Saint Denis e D. Luciana de Santos Sousa.

Registo de batismo de Luciana na Igreja da Candelária no Rio de Janeiro[1] - Aos vinte e sete dias do mês de Junho de mil oitocentos e sessenta e oito anos, nesta Igreja Matriz de Nossa Senhora da Candelária, batizei solenemente a inocente Luciana, nascida a vinte e sete de Dezembro do ano próximo passado, filha legítima de José da Costa Ferreira Souto natural de Portugal e de Dona Maria da Encarnação leal, natural desta cidade, neta paterna de António Ferreira Souto e Dona Quitéria da Costa Souto, naturais de Portugal e materna de Francisco dos Santos Leal; foram padrinhos Eugénio de Saint Denis e Dona Luciana dos Santos, de que fiz este assento que assino.
O coadjutor Januário de Oliveira Rosa

Vista do Centro do Rio de Janeiro a partir da Ilha das Cobras, com a igreja Matriz da Candelária (ao Centro) o Mosteiro de S. Bento (à direita) – década de 60 do século XIX (a cúpula da Candelária só seria concluída em 1877) – R.J.Jacotte

A mãe de Luciana, Maria da Encarnação dos Santos Leal era brasileira, filha de Francisco José dos Santos Leal (português, natural de Alvações do Tanha, freguesia de Vilarinho dos Freires, Peso da Régua) e de Maria José da Encarnação Pinto de Castro Vilaça. Nasceu no dia 2 de junho de1841, dezasseis dias antes da coroação de D. Pedro II como Imperador do Brasil. Era a quinta geração a nascer no Rio de Janeiro, depois de sua mãe Maria José da Encarnação, em 1823, de sua avó Catarina de Sena Pinto de Castro Vilaça, em 1804, de sua bisavó Ana Joaquina Pinto de Castro, em 1781, e de sua trisavó, Rosa Bernarda de Jesus Ormonde Pimentel de Mesquita, em 1748. 
Casou no Rio de Janeiro, aos 22 anos, na Igreja Matriz do Engenho Velho, a 10 de janeiro de 1863, com José da Costa Ferreira Souto, um imigrante português de 31 anos, natural de Mouquim, Vila Nova de Famalicão, onde nasceu a 1 de junho de 1832, filho de António Ferreira e de D. Quitéria Maria da Costa. Em 1854, com 22 anos, emigrou para o Brasil e aí adotou o apelido Souto, em 1858, como se depreende da nota publicada a 31 de janeiro de 1858 no Correio Mercantil do Rio de Janeiro.


José da Costa Ferreira Souto faleceu inesperadamente no Rio de Janeiro, no dia 26 de janeiro de1869. Tinha 36 anos e deixou viúva e três filhas, Maria José de cinco anos, Amélia de três e Luciana com apenas um ano. A herança de José deixou Maria da Encarnação numa situação económica muito confortável, o que lhe possibilitou criar as três filhas num ambiente privilegiado na casa de família, no centro do Rio de Janeiro, mais precisamente na rua de S. José nº 77, próximo do estabelecimento comercial na rua da Quitanda.


Luciana cresceu numa cidade e numa sociedade que se modificava rapidamente. A cidade foi palco de alguns dos mais importantes acontecimentos da história do Brasil. Antes de completar os 10 anos, assistirá ao fim da escravatura, aos últimos dias do Império, à proclamação da República do Brasil e a todas as convulsões políticas e sociais que se seguiram. Assistirá também às modificações resultantes do crescimento da sua cidade e do advento das novas tecnologias que revolucionarão hábitos e costumes nesse final do século XIX como sejam a luz elétrica, o telefone, os “bondes” elétricos, o cinema…

As primeiras fotos, c.1869 no estúdio Cypriano & Silveira na rua do Ourives 34, Rio de Janeiro - Maria José, Amélia e Luciana
 
Em cima à direita, Luciana c.1873 e à esquerda, c.1876 - estúdio Carneiro Silva & Tavares na Rua Gonçalves Dias, 54; Rio de Janeiro; 
Em cima à direita, Luciana c. 1877 e à esquerda c.1879, com as irmãs, Maria José e Amélia

Joaquim Manuel e Luciana casaram no Rio de Janeiro, no dia 26 de novembro de 1892. A cerimónia religiosa, prevista para a igreja de S. José, acabou por se realizar na casa de Joaquim Manuel, na Rua de S. José nº 70, por a mãe da noiva, se encontrar doente.

Fotografias de Joaquim Manuel e de Luciana à data do seu casamento; Estúdio Guimarães & Cia, do ilustre fotógrafo português, radicado no Rio de Janeiro, José Ferreira Guimarães.


Em cima, assento de casamento de Joaquim Manuel com Luciana, retirado do livro de registos da igreja de S. José no Rio de Janeiro[2]
- A  vinte e seis de Novembro de mil oitocentos e noventa e dois, ás cinco da tarde, com provisão do Monsenhor Vigário geral, na casa de residência do contraente, sita á rua de S. José número 70, sobrado, em minha presença e na das testemunhas Joaquim Fernandes dos Santos Júnior e Augusto dos Santos Madahil, por palavras de presente justa tridentino, se receberam em matrimónio Joaquim Manuel de Campos Amaral e Luciana ferreira Souto, ele filho legítimo de Manuel José Tavares de Campos e de Joaquina Rosa Ribeiro do Amaral, nascido e batizado na freguesia de S. Paio de Gramaços, Bispado de Coimbra, em Portugal e ela, filha legítima de José da Costa Ferreira Souto e Maria da Encarnação Leal, nascida e batizada na freguesia de Nossa Senhora da Candelária desta capital; ambos moradores nesta freguesia de S. José.”
O Vigário António José de Sousa

Nota - O casamento foi celebrado em casa, por a mãe da contraente se encontrar doente 

Assinatura de Luciana Ferreira Souto, tal como consta no seu assento de casamento.


Assinatura de Joaquim Manuel de Campos Amaral, tal como consta no seu assento de casamento.

Em cima, registo civil do casamento de Joaquim Manuel com Luciana[3] - Em vinte e seis de novembro de mil oitocentos e noventa e dois, no Rio de Janeiro, na rua de S. José número setenta, casa de residência do contraente onde foi vindo o Doutor Carlos Marques de Sá, juíz da quarta pretória, comigo...no cargo abaixo nomeado e assinado, às duas horas da tarde, presentes as testemunhas Joaquim Fernandes dos Santos Júnior, Joaquim José Viena, Francisco Outono Pires… e António José de Matos Guimarães, receberam-se em matrimónio Joaquim Manuel de Campos Amaral, filho de Manuel José de Campos e de D. Joaquina Rosa do Amaral, com trinta anos de idade, solteiro, português, comerciante, morador na Rua de S. José número setenta, com Luciana Ferreira Souto, filha legítima de José da Costa Ferreira Souto e de D. Maria da Encarnação Leal Souto, com vinte e cinco anos de idade, solteira, natural desta capital, residente na Rua de S. José número setenta e sete...”

Após o casamento Joaquim Manuel e Luciana ficaram a residir no Rio de Janeiro, na Rua de S. José, nº70. Foi nesta casa que nasceram os três filhos mais velhos. No início do século a casa da avó Maria da Encarnação no número 77 sofreu um violento incêndio tendo sido destruída. Foi nessa altura que foi construída a grande casa da família Campos Amaral. A imagem dessa casa, gravada na memória da avó Nanda, e tantas vezes por ela descrita, era a de um prédio com escritório e loja da firma comercial do pai no piso térreo e casa de habitação nos dois andares superiores. Recordava com saudade as brincadeiras de infância no varandim central do 1º andar, sob a luz da claraboia, de onde avistava o seu pai e os outros funcionários a trabalhar no piso térreo. Ainda hoje subsistem inúmeros imóveis deste tipo no Centro do Rio de Janeiro que escaparam à voragem demolidora dos últimos 100 anos. 
No livro Impressões do Brasil no Século Vinte[4], publicado em 1913, na página 613 é publicada uma fotografia do edifício onde se localizava o escritório de exposição de ladrilhos, azulejos, metais e louças, da Firma Amaral, Guimarães & Cia, sendo referida como morada a Rua de S. José números 77 e 79. 
O prédio correspondente ao número 77, com a loja em baixo e os dois pisos superiores, coincide na localização e tipo de edifício, com a descrição da avó Nanda. A residência da família Campos Amaral na cidade do Rio de Janeiro ocupava os dois andares superiores deste prédio. 


Rua de S. José números 77 e 79 no Rio de Janeiro – Residência da família Campos Amaral e escritório e
 loja da Amaral, Guimarães e Cia.
Mapa Architectural da cidade do Rio de Janeiro, de J.Rocha Fragoso (1874) - centro do Rio de Janeiro, 
com as ruas de S. José, da Quitanda, da Assembleia, Praça D. Pedro II (atual Praça XV de Novembro), 
as igrejas do Carmo e de S. José e o Paço Imperial

Joaquim Manuel e Luciana tiveram sete filhos, todos eles nascidos no Rio de janeiro, na rua de S. José, na casa de família e batizados na igreja de S. José.
·       Joaquim Manuel nasceu a 9 de janeiro de 1894.
·       Maria Antónia nasceu a 5 de junho de 1896.
·       José Luso nasceu a 16 de julho de 1899.
·       Fernanda Amélia, a avó Nanda, nasceu a 8 de outubro de 1901.
·       Susana Maria nasceu a 21 de julho de 1903.
·       Manuel José nasceu a 28 de agosto de 1905.
·       Amélia Clementina nasceu a 18 de dezembro de 1907. 

Foto de Marc Ferrez c.1895 Praça Pedro II (atual Praça XV de Novembro) com o Paço à esquerda, o Convento do Carmo, a torre da Catedral, a Igreja do Carmo e a Igreja terceira do Carmo
Foto de Marc Ferrez c.1870 Vista da Praça D. Pedro II a partir do morro do Castelo. Identifica-se a R. de S. José, entre a Câmara dos Deputados à esquerda (antiga prisão) e a Igreja de S. José, em primeiro plano à direita.

Foto de Marc Ferrez c.1890 - Vista do Centro a partir do Morro do Castelo (vê-se ao centro a cúpula da Igreja da Candelária)

A primeira viagem de Joaquim Manuel e Luciana à Europa, teve lugar em 1898. Com eles viajaram também os seus dois filhos já nascidos, Joaquim Manuel e Maria Antónia. 
Dessa viagem ficaram as fotografias tomadas no estúdio Foto Brasil em Lisboa, os binóculos de teatro de D. Luciana Amaral e a terceira gravidez de Luciana. Conta-se que José Luso, nascido a 16 de julho de 1899, terá recebido esse nome de batismo por ter sido concebido em terras Lusas.


Fotos datadas de 1898 em Lisboa – Estúdio Foto Brasil. 
Em cima Joaquim Manuel, Luciana e os dois filhos, Maria Antónia e Joaquim Manuel Jr. 
Em baixo a bisavó Luciana.

Binóculos de teatro da bisavó Luciana.

Durante a permanência em Portugal, passearam pelo país. Conta-se que a bisavó Luciana terá ficado particularmente mal impressionada com a cidade do Porto, nomeadamente com a miséria, a sujidade, o cinzentismo das ruas, a austeridade das roupas das senhoras, as juntas de bois no centro da cidade e o pior de tudo, o costume do lá vai água. 
Regressaram ao Brasil em Novembro de 1898. Embarcaram em Lisboa no paquete a vapor, Malange, da Companhia Mala Real Portugueza, proveniente da cidade de Anvers (Antuérpia) na Bélgica, tal como consta na lista de passageiros desembarcados no Rio de Janeiro no dia 20 de novembro de 1898.


Vapor Malange da Mala Real Portugueza – Construído em 1890, foi um dos quatro navios encomendados entre 1889 e 1898 à Scott & Co., de Greenock, Escócia. Tinha um comprimento de 110,79 metros e capacidade para 220 passageiros distribuídos por três classes. Em 1916 foi adquirido pela marinha de guerra e passou a ser designado por Pedro Nunes. Foi vendido para a sucata em 1924
Da lista de passageiros (1ª classe) do navio a Vapor Malange, proveniente de Anvers, com escala em Lisboa 
e que desembarcaram no Rio de Janeiro no dia 20.11.1898, constam os nomes de 
Joaquim Manuel Campos com senhora D. Luciana, filho Joaquim, de 4 anos e filha Maria de 2 anos. 

Dois anos depois, em 1900, Joaquim Manuel e Luciana regressam à Europa, mas com um objetivo diferente. Era o ano da Exposição Universal de Paris e o bisavô Joaquim por motivos profissionais não podia perder o evento. A memória dessa visita perdurou no imaginário familiar por muitos anos, com histórias contadas e recontadas acerca das maravilhas aí vistas, da iluminação elétrica feérica, do fonógrafo, do cinema, do metropolitano, e da multiplicidade de pavilhões profusamente decorados e repletos com os mais recentes avanços da ciência, da indústria e das artes de todos os países do mundo dito civilizado.
Em 1900 a viagem Lisboa – Paris era feita no Sud-Express da Cia Internationale des Wagons-Lits. Era um comboio luxuoso, que operava diariamente e, à data, era considerado o comboio mais rápido da Europa, atingindo uma velocidade de 91,2 Km/h. Esta linha estava em funcionamento desde 1887. A viagem tinha início na Estação do Rossio em Lisboa e demorava dois dias até Paris. Foi neste mítico comboio que o avô Joaquim e a avó Luciana embarcaram em Lisboa, na estação do Rossio


Em cima à esquerda, a publicidade ao Sud-Express exortava as qualidades do comboio que era descrito como estando ao nível dos grandes expressos da Europa, com instalações luxuosas, periodicidade diária e facilidade de conexão para os passageiros com destino ou provenientes da América do Sul. À esquerda a estação do Rossio em Lisboa.

Gare d´Orsay em Paris, inaugurada em 1900, para a Exposição Universal comboio fazia a ligação Lisboa – Madrid – Paris em dia e meio. Após um dia de viagem através da Península Ibérica, chegava-se a Hendaye. Aí era feito o transbordo para o comboio francês, que percorria a última etapa até Paris, onde chegava ao final do 2º dia de viagem. A estação terminal era a luxuosa e novíssima Gare d´Orsay, inaugurada nesse mesmo ano para a Exposição Universal. 

Ainda nesse ano de 1900, Paris acolhia um outro importante evento, os II Jogos Olímpicos da era moderna (à época com muito menos impacto mediático do que nos dias de hoje)


Para além dos pavilhões temáticos e dos pavilhões das nações participantes, as principais atrações da exposição foram os novos meios de transporte (uma esteira rolante, denominada rua do futuro; a primeira linha de metro de Paris e as novas estações de comboio (D´Orsay, Invalides e Lyon). Também a fonte luminosa, montra da nova utilização da eletricidade para iluminação de ambientes exteriores e a projeção, em grandes écrans, dos filmes dos irmãos Lumiére, foram atrações populares da Exposição. O prodígio das máquinas, o admirável mundo novo que nascia com o século XX.

Planta da Exposição Universal de Paris de 1900


O RIO DE JANEIRO NA TRANSIÇÃO DO SÉCULO
Na transição do século XIX para o século XX, o Centro do Rio de Janeiro, onde se situa a rua de S. José, mantinha ainda muito do seu aspeto colonial. As ruas eram estreitas e mal iluminadas, pejadas duma profusão de vendedores ambulantes de todo o tipo e de mendigos. Muitos dos prédios, antigos e degradados, tinham sido transformados em habitações coletivas (cortiços), sobrelotadas, sem quais quer condições de saneamento. As deficientes condições sanitárias na cidade, a explosão demográfica, decorrente do fluxo constante de novos imigrantes, e os hábitos precários de higiene de grande parte da população, eram responsáveis pelos sucessivos surtos epidémicos (febre amarela, peste bubónica, varíola, entre outros), que assolavam recorrentemente a população carioca.
A vontade de modernização da cidade e o ímpeto reformista do Presidente Rodrigues Alves e do seu Prefeito Pereira Passos, dominaram os primeiros anos do século XX no Rio de Janeiro. A reforma do porto e a construção da avenida Central (atual Av. Rio Branco), uma extensa e larga via que rasgou o coração da cidade colonial, ligando o largo da Prainha (atual Praça Mauá) à praia de Stª Luzia foram os dois motores da revolução levada a cabo pelo Prefeito Pereira Passos.

Demolições no centro do Rio de Janeiro para dar lugar à construção da avenida Central (atual Rio Branco)

A avenida Central com o cruzamento com a rua de S. José, no final da primeira década do século XX. O primeiro prédio à esquerda no cruzamento da avenida com a rua da Assembleia é dos poucos construídos à época que resistiu até aos dias de hoje. 
Aspeto da quadra entre a rua da Assembleia e a de S. José na segunda década do século XX e em 2017, cem anos depois.

Foram demolidos cerca de 2700 prédios, pelo que os primeiros anos do novo século, foram conhecidos popularmente como a época do bota abaixoA nova avenida Central, foi inaugurada a 15 de novembro de 1905.

Os negócios imobiliários gerados por esta revolução urbana beneficiaram a família Campos Amaral, não só pela rápida valorização do seu vasto património imobiliário, em particular nas ruas de S. José, da Quitanda e do Chile, mas também pelo impacto que o incremento da atividade construtora teve nos negócios do avô Joaquim. 

Data desta época a construção do prédio na Rua de S. José nº 77 e 79, para onde a família se mudaria. A residência da família Campos Amaral ocupava os dois andares superiores do edifício e o escritório e loja de exposição da Firma “Amaral, Guimarães & Cia”, o piso térreo.

A avó Nanda e seus irmãos cresceram pois no centro dessa cidade nova, cosmopolita e moderna, num ambiente de prosperidade e euforia social, que marcaria para sempre a sua forma de ser e de estar. 

A reforma urbana de Pereira Passos mudaria muitos dos hábitos dos cariocas. As ruas do centro da cidade passaram a ser um local de referência da sociedade carioca, com as suas lojas de luxo de artigos importados, os cafés, confeitarias, livrarias e teatros. Foi a Belle Époque carioca.


A avenida Central na primeira década do século XX

A avenida Central à data da sua inauguração em 1905.



[1] PRQ-RIO DE JANEIRO / Nossa Senhora da Candelária; Lv bp 27.06.1868/f153v

[2] RPRQ – Rio de Janeiro; Igreja de S. José, Lv Casamentos 1892/ f26v

[3] Livro de registos de casamento da freguesia de S. José, Rio de janeiro – lv 10

[4] “Impressões do Brazil no Século Vinte” de Reginald Lloyd (Edição de 1913 da Lloyd's Greater Britain Publishing Company, Ltd.) – pág. 613