| Registo de batismo de Luciana na Igreja da Candelária no Rio de Janeiro[1] - Aos vinte e sete dias do mês de Junho de mil oitocentos e sessenta e oito anos, nesta Igreja Matriz de Nossa Senhora da Candelária, batizei solenemente a inocente Luciana, nascida a vinte e sete de Dezembro do ano próximo passado, filha legítima de José da Costa Ferreira Souto natural de Portugal e de Dona Maria da Encarnação leal, natural desta cidade, neta paterna de António Ferreira Souto e Dona Quitéria da Costa Souto, naturais de Portugal e materna de Francisco dos Santos Leal; foram padrinhos Eugénio de Saint Denis e Dona Luciana dos Santos, de que fiz este assento que assino. O coadjutor Januário de Oliveira Rosa |
A mãe de Luciana, Maria da Encarnação dos Santos Leal era brasileira, filha de Francisco José dos Santos Leal (português, natural de Alvações do Tanha, freguesia de Vilarinho dos Freires, Peso da Régua) e de Maria José da Encarnação Pinto de Castro Vilaça. Nasceu no dia 2 de junho de1841, dezasseis dias antes da coroação de D. Pedro II como Imperador do Brasil. Era a quinta geração a nascer no Rio de Janeiro, depois de sua mãe Maria José da Encarnação, em 1823, de sua avó Catarina de Sena Pinto de Castro Vilaça, em 1804, de sua bisavó Ana Joaquina Pinto de Castro, em 1781, e de sua trisavó, Rosa Bernarda de Jesus Ormonde Pimentel de Mesquita, em 1748.
| As primeiras fotos, c.1869 no estúdio Cypriano & Silveira na rua do Ourives 34, Rio de Janeiro - Maria José, Amélia e Luciana |
Em cima à direita, Luciana c.1873 e à esquerda, c.1876 - estúdio Carneiro Silva & Tavares na Rua Gonçalves Dias, 54; Rio de Janeiro; |
Em cima à direita, Luciana c. 1877 e à esquerda c.1879, com as irmãs, Maria José e Amélia |
Fotografias de Joaquim Manuel e de Luciana à data do seu casamento; Estúdio Guimarães & Cia, do ilustre fotógrafo português, radicado no Rio de Janeiro, José Ferreira Guimarães. |
Em cima, assento de casamento de Joaquim Manuel com Luciana, retirado do livro de registos da igreja de S. José no Rio de Janeiro[2] - A vinte e seis de Novembro de mil oitocentos e noventa e dois, ás cinco da tarde, com provisão do Monsenhor Vigário geral, na casa de residência do contraente, sita á rua de S. José número 70, sobrado, em minha presença e na das testemunhas Joaquim Fernandes dos Santos Júnior e Augusto dos Santos Madahil, por palavras de presente justa tridentino, se receberam em matrimónio Joaquim Manuel de Campos Amaral e Luciana ferreira Souto, ele filho legítimo de Manuel José Tavares de Campos e de Joaquina Rosa Ribeiro do Amaral, nascido e batizado na freguesia de S. Paio de Gramaços, Bispado de Coimbra, em Portugal e ela, filha legítima de José da Costa Ferreira Souto e Maria da Encarnação Leal, nascida e batizada na freguesia de Nossa Senhora da Candelária desta capital; ambos moradores nesta freguesia de S. José.” O Vigário António José de Sousa Nota - O casamento foi celebrado em casa, por a mãe da contraente se encontrar doente |
Assinatura de Luciana Ferreira Souto, tal como consta no seu assento de casamento. |
Assinatura de Joaquim Manuel de Campos Amaral, tal como consta no seu assento de casamento. |
| Em cima, registo civil do casamento de Joaquim Manuel com Luciana[3] - Em vinte e seis de novembro de mil oitocentos e noventa e dois, no Rio de Janeiro, na rua de S. José número setenta, casa de residência do contraente onde foi vindo o Doutor Carlos Marques de Sá, juíz da quarta pretória, comigo...no cargo abaixo nomeado e assinado, às duas horas da tarde, presentes as testemunhas Joaquim Fernandes dos Santos Júnior, Joaquim José Viena, Francisco Outono Pires… e António José de Matos Guimarães, receberam-se em matrimónio Joaquim Manuel de Campos Amaral, filho de Manuel José de Campos e de D. Joaquina Rosa do Amaral, com trinta anos de idade, solteiro, português, comerciante, morador na Rua de S. José número setenta, com Luciana Ferreira Souto, filha legítima de José da Costa Ferreira Souto e de D. Maria da Encarnação Leal Souto, com vinte e cinco anos de idade, solteira, natural desta capital, residente na Rua de S. José número setenta e sete...” |
No livro Impressões do Brasil no Século Vinte[4], publicado em 1913, na página 613 é publicada uma fotografia do edifício onde se localizava o escritório de exposição de ladrilhos, azulejos, metais e louças, da Firma Amaral, Guimarães & Cia, sendo referida como morada a Rua de S. José números 77 e 79.
| Rua de S. José números 77 e 79 no Rio de Janeiro – Residência da família Campos Amaral e escritório e loja da Amaral, Guimarães e Cia. |
· Joaquim Manuel nasceu a 9 de janeiro de 1894.
| Foto de Marc Ferrez c.1895 Praça Pedro II (atual Praça XV de Novembro) com o Paço à esquerda, o Convento do Carmo, a torre da Catedral, a Igreja do Carmo e a Igreja terceira do Carmo |
| Foto de Marc Ferrez c.1890 - Vista do Centro a partir do Morro do Castelo (vê-se ao centro a cúpula da Igreja da Candelária) |
Fotos datadas de 1898 em Lisboa – Estúdio Foto Brasil. Em cima Joaquim Manuel, Luciana e os dois filhos, Maria Antónia e Joaquim Manuel Jr. Em baixo a bisavó Luciana. |
| Binóculos de teatro da bisavó Luciana. |
Regressaram ao Brasil em Novembro de 1898. Embarcaram em Lisboa no paquete a vapor, Malange, da Companhia Mala Real Portugueza, proveniente da cidade de Anvers (Antuérpia) na Bélgica, tal como consta na lista de passageiros desembarcados no Rio de Janeiro no dia 20 de novembro de 1898.
Em 1900 a viagem Lisboa – Paris era feita no Sud-Express da Cia Internationale des Wagons-Lits. Era um comboio luxuoso, que operava diariamente e, à data, era considerado o comboio mais rápido da Europa, atingindo uma velocidade de 91,2 Km/h. Esta linha estava em funcionamento desde 1887. A viagem tinha início na Estação do Rossio em Lisboa e demorava dois dias até Paris. Foi neste mítico comboio que o avô Joaquim e a avó Luciana embarcaram em Lisboa, na estação do Rossio.
| Planta da Exposição Universal de Paris de 1900 |
Na transição do século XIX para o século XX, o Centro do Rio de Janeiro, onde se situa a rua de S. José, mantinha ainda muito do seu aspeto colonial. As ruas eram estreitas e mal iluminadas, pejadas duma profusão de vendedores ambulantes de todo o tipo e de mendigos. Muitos dos prédios, antigos e degradados, tinham sido transformados em habitações coletivas (cortiços), sobrelotadas, sem quais quer condições de saneamento. As deficientes condições sanitárias na cidade, a explosão demográfica, decorrente do fluxo constante de novos imigrantes, e os hábitos precários de higiene de grande parte da população, eram responsáveis pelos sucessivos surtos epidémicos (febre amarela, peste bubónica, varíola, entre outros), que assolavam recorrentemente a população carioca.
A vontade de modernização da cidade e o ímpeto reformista do Presidente Rodrigues Alves e do seu Prefeito Pereira Passos, dominaram os primeiros anos do século XX no Rio de Janeiro. A reforma do porto e a construção da avenida Central (atual Av. Rio Branco), uma extensa e larga via que rasgou o coração da cidade colonial, ligando o largo da Prainha (atual Praça Mauá) à praia de Stª Luzia foram os dois motores da revolução levada a cabo pelo Prefeito Pereira Passos.
Demolições no centro do Rio de Janeiro para dar lugar à construção da avenida Central (atual Rio Branco) |
| Aspeto da quadra entre a rua da Assembleia e a de S. José na segunda década do século XX e em 2017, cem anos depois. |
Foram demolidos cerca de 2700 prédios, pelo que os primeiros anos do novo século, foram conhecidos popularmente como a época do bota abaixo. A nova avenida Central, foi inaugurada a 15 de novembro de 1905.
Os negócios imobiliários gerados por esta revolução urbana beneficiaram a família Campos Amaral, não só pela rápida valorização do seu vasto património imobiliário, em particular nas ruas de S. José, da Quitanda e do Chile, mas também pelo impacto que o incremento da atividade construtora teve nos negócios do avô Joaquim.
Data desta época a construção do prédio na Rua de S. José nº 77 e 79, para onde a família se mudaria. A residência da família Campos Amaral ocupava os dois andares superiores do edifício e o escritório e loja de exposição da Firma “Amaral, Guimarães & Cia”, o piso térreo.
A avó Nanda e seus irmãos cresceram pois no centro dessa cidade nova, cosmopolita e moderna, num ambiente de prosperidade e euforia social, que marcaria para sempre a sua forma de ser e de estar.
A reforma urbana de Pereira Passos mudaria muitos dos hábitos dos cariocas. As ruas do centro da cidade passaram a ser um local de referência da sociedade carioca, com as suas lojas de luxo de artigos importados, os cafés, confeitarias, livrarias e teatros. Foi a Belle Époque carioca.
| A avenida Central na primeira década do século XX |
| A avenida Central à data da sua inauguração em 1905. |
[1] PRQ-RIO DE JANEIRO / Nossa Senhora da Candelária; Lv bp 27.06.1868/f153v
[2] RPRQ – Rio de Janeiro; Igreja de S. José, Lv Casamentos 1892/ f26v
[3] Livro de registos de casamento da freguesia de S. José, Rio de janeiro – lv 10
[4] “Impressões do Brazil no Século Vinte” de Reginald Lloyd (Edição de 1913 da Lloyd's Greater Britain Publishing Company, Ltd.) – pág. 613
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