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| O navio a vapor que transportou o bisavô Joaquim de Lisboa para o Rio de Janeiro, não seria muito diferente do retratado neste óleo Facchinetti de 1872 (Museu de Arte do Rio -MAR) |
Joaquim Manuel de Campos Amaral passou ao Brasil no final de 1873, com apenas 11 anos. Não sabemos as circunstâncias que levaram a essa decisão. Seus pais eram conhecidos proprietários em S. Paio de Gramaços. Sua mãe Joaquina Rosa era oriunda duma importante família de Lagos da Beira, os Ribeiro do Amaral. Joaquim Manuel era o filho varão mais velho do casal. Sua irmã Maria Amália tinha 13 anos e os seus irmãos, António, Manuel Francisco e João, respetivamente 9, 6 e 4 anos. Após a sua partida ainda nasceriam mais quatro irmãos. É provável que a idade avançada do pai, que na altura tinha 66 anos possa ter sido um fator determinante. A expetativa de um final de vida próximo, ainda com filhos menores pode ter levado Manuel Tavares de Campos a ponderar enviar o seu filho a tentar a sorte no Brasil com vista a assegurar, no futuro, o provento da família.
O movimento migratório da região de Oliveira do Hospital para o Brasil e em particular para o Rio de Janeiro era uma realidade importante, que se acentuou a partir da segunda metade do século XIX. A falta de oportunidades em Portugal, em especial nas regiões rurais e o frequente sucesso alcançado no outro lado do Atlântico pelos filhos da terra eram os dois fatores que levavam as famílias a incentivar os seus jovens a tentar a sorte no Brasil.
Os comerciantes portugueses estabelecidos no Rio de Janeiro faziam questão de contratar preferencialmente para as suas lojas jovens caixeiros vindos diretamente de Portugal. Estas redes de contratação eram frequentemente sustentadas em laços familiares ou geográficos e as próprias famílias dos jovens preparavam-nos para esse destino promissor assegurando a sua educação e providenciando os recursos necessários para pagar a viagem.
Os jovens partiam com 12-14 anos e por vezes mais cedo, também, para escaparem ao serviço militar. Ao chegar ao Brasil começavam, em regra, como aprendizes na loja de um familiar ou conterrâneo. Eram anos de trabalho árduo até alcançarem a primeira meta estabelecida, a participação na sociedade comercial. Os mais ambiciosos almejavam um dia ter um negócio próprio. A ascensão social em terras brasileiras passava frequentemente pelo casamento com uma das filhas do patrão.
A relação da família materna com Francisco Augusto Mendes Monteiro, pai do Monteiro dos milhões, também ele oriundo de Lagos da Beira, pode explicar a rede de contactos que possibilitou a ida do jovem Joaquim em busca do sonho brasileiro. Ao longo da sua vida o avô Joaquim manteve uma relação de amizade com António Augusto Carvalho Monteiro, o Monteiro dos milhões, tanto assim que, quando regressou a Portugal já no século XX, adquiriu uma propriedade em Benfica, não muito longe da Quinta do Monteiro dos milhões.
A 18 de Agosto de 1873, Joaquim Manuel, solicita às autoridades eclesiásticas que lhe seja passada uma certidão com os dados do seu assento de batismo. Era o primeiro passo para poder requerer o passaporte.
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Requerimento de certidão de batismo de Joaquim Manuel (com a sua assinatura), às autoridades eclesiásticas do bispado de Coimbra a 18.08.1873 Livro Documentos para pedido de Passaportes – Coimbra Tomo 21; 1873 (reg 3008; Imagem 810/811/812) |
A 12 de Novembro desse mesmo ano é-lhe concedido passaporte, emitido pelo Distrito Administrativo de Coimbra, válido por sessenta dias, para sair de Portugal com destino ao Rio de Janeiro, pela barra de Lisboa onde embarcaria. Através deste documento ficamos a saber que o jovem Joaquim Manuel, de apenas 11 anos, tinha, à data, 1,43 m de altura, rosto redondo, cabelos e sobrancelhas de cor castanha, olhos castanhos escuros, nariz e boca regular e de cor natural e nas observações, ressalva-se que, sabe escrever.
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| Autorização de concessão de passaporte a Joaquim Manuel de Campos Amaral a 12.11.1873 |
Numa entrevista que concedeu em Oliveira do Hospital em 1912 e publicada no semanário A Folha de Oliveira, a 7 de janeiro de 1912, Joaquim Manuel menciona ter ido para o Brasil com Francisco Maria de Brito, seu tio e importante comerciante e proprietário em Vassouras[2]. De facto, nos registos de passaporte concedidos, no dia 12 de novembro de 1873, dia em que foi concedido passaporte a Joaquim Manuel, foi também concedido a Francisco Maria de Brito. Desse registo consta que tinha 42 anos, era proprietário estava casado. O passaporte autorizava a sua saída para o Rio de Janeiro acompanhado de sua cunhada Lindorfa Soares de Brito e de cinco sobrinhos.
Francisco Maria de Brito era natural de Lagos da Beira (Chamusca), filho de Manuel de Brito, da Chamusca e de Maria da Mota de S. Paio de Gramaços. Na entrevista publicada em 1912 Joaquim Manuel refere-o como seu tio. Não conseguimos confirmar, pelos registos, afinidade familiar, mas seguramente haveria alguma relação, provavelmente através dos Motas de S. Paio de Gramaços.
De acordo com a informação que consta na autorização de passaporte, Joaquim Manuel, embarcou em Lisboa.
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Fotografia de Lisboa com o Tejo c. 1860 (zona onde hoje se encontra o cais da Rocha-Conde de Óbidos). |
Pelo facto de ter saído pela barra de Lisboa e não no Porto presume-se que a viagem tenha sido feita em navio a vapor e não em veleiro. As grandes companhias europeias de navios a vapor que faziam a rota da América do Sul escalavam Lisboa, enquanto os navios que saiam do Porto eram quase sempre veleiros de nacionalidade portuguesa. Desde o início dos anos 60 do século XIX que os vapores conseguiam cobrir a distância de Lisboa ao Rio de Janeiro em metade ou mesmo um terço do tempo exigido aos veleiros. Havia vapores a fazer a viagem Lisboa-Rio em 18 dias.
As condições a bordo também eram indiscutivelmente melhores. Quando as companhias de navegação anunciavam as camas e roupa de cama dos seus paquetes e outros pequenos luxos, como o pão fresco todos os dias, estavam na realidade a oferecer um serviço que os veleiros dificilmente poderiam igualar mesmo para os passageiros de 1ª classe. Outra das vantagens dos modernos navios a vapor, era a área de convés, maior e mais desimpedida onde os passageiros podiam circular, e conviver no decurso dos intermináveis dias passados no mar.
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O ambiente a bordo não seria muito diferente do retratado nesta foto tomada num navio de emigrantes no século XIX. |
A viagem em navio a vapor era, contudo, significativamente mais cara. No ano em que o avô Joaquim embarcou para o Brasil, a passagem mais barata num veleiro custava cerca de trinta e cinco mil reis (35$000) o que já de si era uma quantia avultada se considerarmos que um trabalhador rural ganhava menos de 200 reis por dia. Num navio a vapor a passagem era quase 30% mais cara. Fazendo a correspondência para os valores atuais e considerando que o valor do trabalho diário de um trabalhador rural anda à volta de 40 euros, a viagem custaria nos dias de hoje cerca de 9.000 euros. Para muitas das famílias que enviavam os seus filhos, este custo representava um investimento no futuro, que obrigava frequentemente a vender propriedades ou mesmo ao endividamento.
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Quando o bisavô Joaquim Manuel desembarcou no Rio de janeiro era este o aspeto do Centro, com a igreja de S. José em primeiro plano. |
Joaquim Manuel terá permanecido no Rio de Janeiro como aprendiz na loja de um familiar ou de um conterrâneo. Desconhecemos o que se passou nos cerca de 17 anos entre a sua chegada ao Rio de Janeiro e a fundação da firma Amaral, Guimarães & Companhia em 1890.
A vida de aprendiz no comércio não terá sido fácil. Não obstante, Joaquim Manuel não descurou a sua instrução tendo frequentado o Lyceu Literário Portuguez, instituição filantrópica, que ainda hoje existe no Rio de Janeiro[3].
A primeira notícia que encontramos sobre Joaquim Manuel no Rio de Janeiro, data de 18.12.1884, com a publicação no jornal O Paiz, do resultado dos exames prestados no dia 16 do mesmo mês no Lyceu Literário Portuguez no Rio de Janeiro. Nessa notícia dá-se conta que Joaquim de Campos Amaral tinha sido aprovado com distinção na prova de Aritmética.

Em 1886 Joaquim Manuel integra novamente a lista dos aprovados com distinção na prova de português, estando classificado entre os 10 melhores alunos do Lyceu Litterário Portuguez, num total de 52.
O sucesso alcançado como empresário do comércio no Rio de Janeiro, nunca o deixou esquecer as oportunidades que lhe foram dadas pelo Lyceu e ao longo da sua vida soube retribuir, colaborando como quadro dirigente e contribuindo com donativos generosos, para o financiamento da instituição. Chegou mesmo a ser presidente do Retiro Literário Português. A maioria destes jovens, que triunfava e fazia fortuna no Brasil, partilhava um sentimento de gratidão para com as famílias que neles haviam apostado, muitas vezes com sacrifício. O envio de remessas para a família, o investimento em obras de melhoria nas terras de origem e o auxílio a outros membros da família ou conterrâneos eram uma constante
Já adulto e bem-sucedido, Joaquim Manuel mandou chamar dois dos seus irmãos, João António e Manuel José.
João António de Campos Amaral, o irmão mais novo, foi sócio do bisavô Joaquim e veio a casar com a filha de António José de Matos Guimarães, conhecido homem de negócios do Rio de Janeiro, grande amigo e também ele sócio do bisavô Joaquim.
[1] Livro de Registos de pedidos de passaporte- Coimbra; Tomo 6, 1873-1874; Reg 2108; f137v
[2] Vassouras – Cidade no Centro-Sul do estado do Rio de janeiro, no vale do Paraíba, e que no seu apogeu na década de 50 do século XIX ficou conhecido como a capital do Café.
[3] Fundado em 1868 por elementos da comunidade portuguesa, sócios do Retiro Literário Portuguez, o Lyceu foi criado com o objetivo de assegurar, de forma gratuita, o acesso à educação aos jovens trabalhadores no comércio, quase sempre imigrantes com algum grau de escolaridade. As aulas decorriam no período noturno, fora do horário de trabalho.
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