terça-feira, 6 de janeiro de 2026

A ARCA COM HISTÓRIAS

A MEMÓRIA É UMA CURIOSA MISTURA DE LEMBRANÇAS E ESQUECIMENTOS

Jorge Luís Borges 

 

Algumas das memórias mais vívidas da minha infância e adolescência, são as que ficaram da minha convivência com a avó Nanda. Era brasileira, nascida no Rio de Janeiro no virar do século, mais precisamente em 1901 e embora tendo vivido a maior parte da sua vida em Portugal, foi profundamente marcada pelas suas raízes cariocas. O seu jeito de falar, não pelo sotaque, que já pouco se notava, mas pelas palavras que só ela usava, o seu sentido de humor e sobretudo a sua alegria de viver revelavam a sua alma carioca. Era uma mulher à frente do seu tempo.

O colorido e o carinho que imprimia a todas as histórias que contava fascinavam a minha imaginação de criança. Aprendi com ela a amar e a admirar aquela figura austera que apenas conhecia de fotografias antigas, o bisavô Joaquim Manuel. Foram muitas as histórias contadas, quais peças de um imenso puzzle dispersas na minha memória.

Muitos anos passaram e o ensejo de juntar as peças desse puzzle foi crescendo. Queria preservar essa memória feita de lembranças e não de esquecimentos, para a minha filha e para os meus netos. 

Em 2009, quando iniciamos as nossas investigações genealógicas, descobrimos que o bisavô Joaquim tinha sido presidente da Associação dos Empregados no Comércio no Rio de Janeiro. Sem grande expectativa enviamos um mail para a Associação e poucos dias depois recebíamos uma resposta. 

A secretária da administração, Iza Barros informava-nos que ia tentar, no que estivesse ao seu alcance, dar o seu contributo. E assim ao longo de várias semanas fomos recebendo mails relatando o andamento da pesquisa. Aquilo que começou como uma gentileza da Iza para com os descendentes de Joaquim Manuel de Campos Amaral, virou um projeto de investigação histórica e ao fim de algum tempo recebíamos um relatório completo da história da associação e os detalhes da ação de Joaquim Manuel de Campos Amaral.

O carinho, dedicação e empenho com que a Iza abraçou este projeto, motivada apenas pelo desejo de ajudar alguém a conhecer as suas origens, fez-nos acreditar que nem sempre são grandes, os gestos que fazem a diferença. É frequentemente no anonimato dos pequenos gestos que contribuímos para a felicidade uns dos outros e para a construção de um mundo melhor.

E assim começou esta aventura. Das pontas soltas das histórias contadas pela avó Nanda, se foi resgatando do esquecimento o bisavô Joaquim Manuel e com ele as minhas raízes da Beira e o reencontro de familiares que as vicissitudes da vida tinham afastado. 

Mas o bichinho da genealogia levou-nos mais longe e foram muitas as histórias resgatadas ao longo dos anos ajudando a moldar a identidade da nossa família. A ARCA COM HISTÓRIAS nasce da vontade de dar forma às histórias herdadas, de as resgatar do silêncio e as transformar em narrativa, num gesto de reconhecimento de quem somos, de onde viemos e do legado silencioso que carregamos.

Como dizia o poeta, (...) procura o sangue do teu sangue o nome do teu nome procura a História já sem vida e a vida feita História procura o tempo e seu sentido sob a torre caída da nossa perdida, perdida memória (ATLÂNTICO; Manuel Alegre 1981)Procurar a história já sem vida de um nome, é resgatar do esquecimento as vidas que não fizeram HistóriaConhece-las é conhecer a nossa história, o sangue do nosso sangue e perceber que somos únicos, o produto de uma magnífica cadeia de eventos, irrepetível, que se perde no tempo. Cada geração é o último elo dessa cadeia e preservar a nossa história é assegurar a continuidade desses elos.

A ARCA COM HISTÓRIAS é um convite a olhar o passado, para melhor entender o presente e deixar às gerações futuras narrativas vivas, humanas, cheias de sentido, revelando as raízes e os fios invisíveis que ligam as gerações que constroem a tessitura maior da nossa História familiar.


À MEMÓRIA DA MINHA AVÓ NANDA

FERNANDA AMÉLIA LEAL SOUTO DE CAMPOS AMARAL





Nasceu no Rio de Janeiro, na freguesia de S. José, no dia 8 de outubro de 1901.


Faleceu em Lisboa no dia 13 de dezembro de 1989.

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