terça-feira, 6 de janeiro de 2026

JOAQUIM MANUEL DE CAMPOS AMARAL (2ª PARTE) - A IDA PARA O BRASIL

O navio a vapor que transportou o bisavô Joaquim de Lisboa para o Rio de Janeiro, não seria muito diferente do retratado neste óleo Facchinetti  de 1872 (Museu de Arte do Rio -MAR)


Joaquim Manuel de Campos Amaral passou ao Brasil no final de 1873, com apenas 11 anos. Não sabemos as circunstâncias que levaram a essa decisão. Seus pais eram conhecidos proprietários em S. Paio de Gramaços. Sua mãe Joaquina Rosa era oriunda duma importante família de Lagos da Beira, os Ribeiro do Amaral. Joaquim Manuel era o filho varão mais velho do casal. Sua irmã Maria Amália tinha 13 anos e os seus irmãos, António, Manuel Francisco e João, respetivamente 9, 6 e 4 anos. Após a sua partida ainda nasceriam mais quatro irmãos. É provável que a idade avançada do pai, que na altura tinha 66 anos possa ter sido um fator determinante. A expetativa de um final de vida próximo, ainda com filhos menores pode ter levado Manuel Tavares de Campos a ponderar enviar o seu filho a tentar a sorte no Brasil com vista a assegurar, no futuro, o provento da família.

O movimento migratório da região de Oliveira do Hospital para o Brasil e em particular para o Rio de Janeiro era uma realidade importante, que se acentuou a partir da segunda metade do século XIX. A falta de oportunidades em Portugal, em especial nas regiões rurais e o frequente sucesso alcançado no outro lado do Atlântico pelos filhos da terra eram os dois fatores que levavam as famílias a incentivar os seus jovens a tentar a sorte no Brasil. 

Os comerciantes portugueses estabelecidos no Rio de Janeiro faziam questão de contratar preferencialmente para as suas lojas jovens caixeiros vindos diretamente de Portugal. Estas redes de contratação eram frequentemente sustentadas em laços familiares ou geográficos e as próprias famílias dos jovens preparavam-nos para esse destino promissor assegurando a sua educação e providenciando os recursos necessários para pagar a viagem. 

Os jovens partiam com 12-14 anos e por vezes mais cedo, também, para escaparem ao serviço militar. Ao chegar ao Brasil começavam, em regra, como aprendizes na loja de um familiar ou conterrâneo. Eram anos de trabalho árduo até alcançarem a primeira meta estabelecida, a participação na sociedade comercial. Os mais ambiciosos almejavam um dia ter um negócio próprio. A ascensão social em terras brasileiras passava frequentemente pelo casamento com uma das filhas do patrão.

A relação da família materna com Francisco Augusto Mendes Monteiro, pai do Monteiro dos milhões, também ele oriundo de Lagos da Beira, pode explicar a rede de contactos que possibilitou a ida do jovem Joaquim em busca do sonho brasileiro. Ao longo da sua vida o avô Joaquim manteve uma relação de amizade com António Augusto Carvalho Monteiro, o Monteiro dos milhões, tanto assim que, quando regressou a Portugal já no século XX, adquiriu uma propriedade em Benfica, não muito longe da Quinta do Monteiro dos milhões

A 18 de Agosto de 1873, Joaquim Manuel, solicita às autoridades eclesiásticas que lhe seja passada uma certidão com os dados do seu assento de batismo. Era o primeiro passo para poder requerer o passaporte. 


Requerimento de certidão de batismo de Joaquim Manuel (com a sua assinatura), às autoridades
eclesiásticas do bispado de Coimbra a 18.08.1873 Livro Documentos
para pedido de Passaportes – Coimbra Tomo 21; 1873 (reg 3008; Imagem 810/811/812)

A 12 de Novembro desse mesmo ano é-lhe concedido passaporte, emitido pelo Distrito Administrativo de Coimbra, válido por sessenta dias, para sair de Portugal com destino ao Rio de Janeiro, pela barra de Lisboa onde embarcaria. Através deste documento ficamos a saber que o jovem Joaquim Manuel, de apenas 11 anos, tinha, à data, 1,43 m de altura, rosto redondo, cabelos e sobrancelhas de cor castanha, olhos castanhos escuros, nariz e boca regular e de cor natural e nas observações, ressalva-se que, sabe escrever.

Autorização de concessão de passaporte a Joaquim Manuel de Campos Amaral a 12.11.1873[1]


Numa entrevista que concedeu em Oliveira do Hospital em 1912 e publicada no semanário A Folha de Oliveira, a 7 de janeiro de 1912, Joaquim Manuel menciona ter ido para o Brasil com Francisco Maria de Brito, seu tio e importante comerciante e proprietário em Vassouras[2]. De facto, nos registos de passaporte concedidos, no dia 12 de novembro de 1873, dia em que foi concedido passaporte a Joaquim Manuel, foi também concedido a Francisco Maria de Brito. Desse registo consta que tinha 42 anos, era proprietário estava casado. O passaporte autorizava a sua saída para o Rio de Janeiro acompanhado de sua cunhada Lindorfa Soares de Brito e de cinco sobrinhos.

Francisco Maria de Brito era natural de Lagos da Beira (Chamusca), filho de Manuel de Brito, da Chamusca e de Maria da Mota de S. Paio de Gramaços. Na entrevista publicada em 1912 Joaquim Manuel refere-o como seu tio. Não conseguimos confirmar, pelos registos, afinidade familiar, mas seguramente haveria alguma relação, provavelmente através dos Motas de S. Paio de Gramaços.

De acordo com a informação que consta na autorização de passaporte, Joaquim Manuel, embarcou em Lisboa.  

Fotografia de Lisboa com o Tejo c. 1860 (zona onde hoje se encontra o cais da Rocha-Conde de Óbidos).

Pelo facto de ter saído pela barra de Lisboa e não no Porto presume-se que a viagem tenha sido feita em navio a vapor e não em veleiro. As grandes companhias europeias de navios a vapor que faziam a rota da América do Sul escalavam Lisboa, enquanto os navios que saiam do Porto eram quase sempre veleiros de nacionalidade portuguesa. Desde o início dos anos 60 do século XIX que os vapores conseguiam cobrir a distância de Lisboa ao Rio de Janeiro em metade ou mesmo um terço do tempo exigido aos veleiros. Havia vapores a fazer a viagem Lisboa-Rio em 18 dias.

As condições a bordo também eram indiscutivelmente melhores. Quando as companhias de navegação anunciavam as camas e roupa de cama dos seus paquetes e outros pequenos luxos, como o pão fresco todos os dias, estavam na realidade a oferecer um serviço que os veleiros dificilmente poderiam igualar mesmo para os passageiros de 1ª classe. Outra das vantagens dos modernos navios a vapor, era a área de convés, maior e mais desimpedida onde os passageiros podiam circular, e conviver no decurso dos intermináveis dias passados no mar.
O ambiente a bordo não seria muito diferente do retratado nesta foto
tomada num navio de emigrantes no século XIX.

A viagem em navio a vapor era, contudo, significativamente mais cara. No ano em que o avô Joaquim embarcou para o Brasil, a passagem mais barata num veleiro custava cerca de trinta e cinco mil reis (35$000) o que já de si era uma quantia avultada se considerarmos que um trabalhador rural ganhava menos de 200 reis por dia. Num navio a vapor a passagem era quase 30% mais cara. Fazendo a correspondência para os valores atuais e considerando que o valor do trabalho diário de um trabalhador rural anda à volta de 40 euros, a viagem custaria nos dias de hoje cerca de 9.000 euros. Para muitas das famílias que enviavam os seus filhos, este custo representava um investimento no futuro, que obrigava frequentemente a vender propriedades ou mesmo ao endividamento. 

Quando o bisavô Joaquim Manuel desembarcou no Rio de janeiro era este 
o aspeto do Centro, com a igreja de S. José em primeiro plano.

Joaquim Manuel terá permanecido no Rio de Janeiro como aprendiz na loja de um familiar ou de um conterrâneo. Desconhecemos o que se passou nos cerca de 17 anos entre a sua chegada ao Rio de Janeiro e a fundação da firma Amaral, Guimarães & Companhia em 1890.

A vida de aprendiz no comércio não terá sido fácil. Não obstante, Joaquim Manuel não descurou a sua instrução tendo frequentado o Lyceu Literário Portuguez, instituição filantrópica, que ainda hoje existe no Rio de Janeiro[3]

A primeira notícia que encontramos sobre Joaquim Manuel no Rio de Janeiro, data de 18.12.1884, com a publicação no jornal O Paiz, do resultado dos exames prestados no dia 16 do mesmo mês no Lyceu Literário Portuguez no Rio de Janeiro. Nessa notícia dá-se conta que Joaquim de Campos Amaral tinha sido aprovado com distinção na prova de Aritmética. 


Em 1886 Joaquim Manuel integra novamente a lista dos aprovados com distinção na prova de português, estando classificado entre os 10 melhores alunos do Lyceu Litterário Portuguez, num total de 52.

O sucesso alcançado como empresário do comércio no Rio de Janeiro, nunca o deixou esquecer as oportunidades que lhe foram dadas pelo Lyceu e ao longo da sua vida soube retribuir, colaborando como quadro dirigente e contribuindo com donativos generosos, para o financiamento da instituição. Chegou mesmo a ser presidente do Retiro Literário Português. A maioria destes jovens, que triunfava e fazia fortuna no Brasil, partilhava um sentimento de gratidão para com as famílias que neles haviam apostado, muitas vezes com sacrifício. O envio de remessas para a família, o investimento em obras de melhoria nas terras de origem e o auxílio a outros membros da família ou conterrâneos eram uma constante

Já adulto e bem-sucedido, Joaquim Manuel mandou chamar dois dos seus irmãos, João António e Manuel José.

João António de Campos Amaral, o irmão mais novo, foi sócio do bisavô Joaquim e veio a casar com a filha de António José de Matos Guimarães, conhecido homem de negócios do Rio de Janeiro, grande amigo e também ele sócio do bisavô Joaquim. 

Manuel José de Campos Amaral, o outro irmão do bisavô Joaquim, também fez carreira como comerciante no Rio de Janeiro, onde viria a falecer, precocemente, a 16 de abril de 1919, com apenas 41 anos, na sequência de uma intervenção cirúrgica.

  Foto de Joaquim Manuel com o irmão João António, no Rio de Janeiro

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[1] Livro de Registos de pedidos de passaporte- Coimbra; Tomo 6, 1873-1874; Reg 2108; f137v

[2] Vassouras – Cidade no Centro-Sul do estado do Rio de janeiro, no vale do Paraíba, e que no seu apogeu na década de 50 do século XIX ficou conhecido como a capital do Café.

[3] Fundado em 1868 por elementos da comunidade portuguesa, sócios do Retiro Literário Portuguez, o Lyceu foi criado com o objetivo de assegurar, de forma gratuita, o acesso à educação aos jovens trabalhadores no comércio, quase sempre imigrantes com algum grau de escolaridade. As aulas decorriam no período noturno, fora do horário de trabalho.




JOAQUIM MANUEL DE CAMPOS AMARAL (1ª parte) - S. PAIO DE GRAMAÇOS, OLIVEIRA DO HOSPITAL

JOAQUIM MANUEL DE CAMPOS AMARAL

Nasceu em S. Paio de Gramaços,

 

Concelho de Oliveira do Hospital, Distrito de Coimbra no dia 16 de março de 1862


Faleceu no Rio de Janeiro, Brasil, no dia 30 de junho de 1918



Joaquim Manuel de Campos Amaral, nasceu em São Paio de Gramaços, (uma povoação do Concelho de Oliveira do Hospital, Distrito de Coimbra), às 2 horas da tarde de 16 de Março de 1862, filho de Manuel Tavares de Campos e de Joaquina Rosa Ribeiro do Amaral, tal como consta do seu assento de batismo.

São Paio de Gramaços (também conhecida como São Paio do Codeço), é uma povoação da Beira Alta com raízes na pré-história como o demonstram os achados arqueológicos que remontam ao período neolítico. Foi sucessivamente ocupada pelos romanos, visigodos e árabes. A cristianização dá-se com a conquista das terras de Seia por Fernando Magno em 1056.

No reinado de D. Afonso Henriques, um dos principais povoados da região era Garamaços ou Gramaços, com paróquia dedicada ao Mártir S. Pelágio (ou S. Paio) com foro sancionado e reforçado em 1136 pelo primeiro rei de Portugal. Aí vivia Dom Chavão, rico-homem das terras de Seia e representante do rei neste território. De acordo com o historiador e investigador Prof. Dr. António de Vasconcelos, Dom Chavão detinha os direitos de padriado eclesiástico na paróquia de Sampaio de Garamaços.

No século XII a doação de terras entre os povoados de Ulveira (1) e da Bobadela, por D. Teresa, mãe de D. Afonso Henriques, à Ordem Hospitalária de S. João de Jerusalém, vai alterar a história de toda esta região.

Foi o embrião de uma das mais importantes comendas, que a Ordem dos hospitalários possuiu em Portugal. Senhora desta herdade em Ulveira, a Ordem do Hospital principiou logo a alargar os seus domínios nesta região, por compras, doações e outras formas de aquisição de terras, casais, jurisdições etc., e isto tão rapidamente, que em breve toda a pobla de Ulveira e o território circundante era pertença dos hospitalários, com exceção apenas dum ou doutro casal, pouquíssimos, que continuaram sendo realengo (2).

Nas inquirições de D. Dinis, de 1288 é já mencionada a Parrochia Sancta Crucis de Ulvaria do Spital.  A designação Ulveira do Hospital, foi adotada para a distinguir de outras povoações próximas com igual denominação, como S. Miguel de Ulveira (hoje Vila Nova de Oliveirinha) e Ulveira do Conde (hoje Oliveira do Conde). Gramaços assim como as povoações vizinhas de Gavinhos de baixo e de cima, perdem progressivamente a sua importância em detrimento de Ulveira do Hospital. 

Em meados do século XVI (1543) em Sampaio de Gramaços, foi constituída na igreja Paroquial a "Santa Irmandade do Mártir S. Pelágio", na qual D. João III se filiou e se declarou "Protector e Juiz Perpétuo", com estatutos próprios e grandes privilégios concedidos pelo Papa Júlio III (1550-1553). O retábulo principal da igreja representa o martírio de S. Pelágio e é do século XIX; S. Pelágio está ainda representado numa escultura em pedra da segunda metade do século XV. No interior da Igreja existem ainda imagens da Virgem com o Menino (Nª. Sr.ª. da Graça) dos séculos XVI-XVII, de N.ª Senhora do Rosário, em pedra, do século XVI, de Santo António, em madeira, dos séculos XVII-XVIII. A atual igreja de S. Paio de Gramaços é uma edificação do século XVIII

A Igreja de S. Paio de Gramaços, onde Joaquim Manuel de Campos Amaral foi batizado em 1862


O século XIX foi um período conturbado para esta região. As invasões francesas deixaram um rasto de devastação e morte por todo o país. Nesta região, a retirada em fuga das tropas do general Massena em 1811 foi particularmente sangrenta. Num relato datado de 25 de abril de 1811, o padre José Joaquim Garcia Abranches, cura de S. Paio do Codeço, conta que, os soldados franceses aí permaneceram três dias e quatro noites durante os quais cometeram as maiores atrocidades. No rescaldo da barbárie foram contabilizados sete mortos e onze feridos entre a população civil, sete casas incendiadas, das quais nada restou além das paredes, roubos de toda a ordem na igreja e fora dela. 

Gravura de época ilustrando as atrocidades cometidas pelos franceses

As invasões deixaram marcas profundas, mas não menos graves foram as consequências da guerra civil que se seguiu. 

Em 1834, com a assinatura da convenção de Évora Monte, cessavam as hostilidades entre absolutistas e liberais, contudo, os conflitos armados prolongar-se-iam por muito mais tempo em algumas regiões do país, associados a fenómenos regionais de banditismo, como foi o caso do João Brandão, o terror das beiras, ou o Zé do Telhado no Minho ou o Remexido no Algarve.

Se a primeira metade do século XIX foi pautada pela violência da guerra e do banditismo, a segunda metade será dominada pela instabilidade social e política com repercussões graves na vida das populações.

D. Luís tinha sido aclamado Rei de Portugal em Dezembro de 1861, por morte de seu irmão D. Pedro V, sem descendência. Viviam-se os últimos anos do período que ficou conhecido para a história como Regeneração, no qual o país tentou compensar o atraso causado por meio século de lutas intestinas. O incremento das obras públicas no ministério de Fontes Pereira de Melo foi o principal motor de desenvolvimento do país nesse período. As reformas iniciadas nos ministérios em Lisboa pouco impacto tiveram na vida das populações do interior do país. Ao longo de todo o século XIX e em particular na segunda metade, intensificaram-se os fluxos migratórios, para as regiões do litoral, que iniciavam o processo de industrialização, mas sobretudo para o Brasil.

Joaquim Manuel era o primeiro filho varão do casal Manuel Tavares de Campos e de Joaquina Rosa Ribeiro do Amaral. À data do seu nascimento em 1862, seu pai contava já com 54 anos. Tinha uma irmã mais velha, Maria Amália, nascida em 1860, e depois dele nasceram ainda, António, em 1864, Manuel, em 1867, João, em 1869, Maria

Flaviana, em 1874, Serafim, em 1876), José Joaquim, em 1878) e Lucinda de Jesus, em 1881.

Joaquim Manuel foi batizado na Igreja de S. Paio de Gramaços no dia 30 de Abril de 1862, tendo por padrinhos os tios maternos, Joaquim Ribeiro do Amaral e Amélia Ribeiro do Amaral, tal como consta no respetivo assento. 

Assento de batismo de Joaquim Manuel de campos Amaral na igreja de S. Paio de Gramaços em 1862 (3)

Aos trinta dias do mês de Abril do ano de mil oitocentos e sessenta e dois, pelas doze horas do dia, na Igreja Paroquial da freguesia de S. Paio de Gramaços, Concelho de Oliveira do Hospital, Distrito Eclesiástico de Travanca de Lagos, Diocese de Coimbra, eu o Presbítero Dionísio Garcia Ribeiro, Prior da mesma freguesia, batizei solenemente e pus os Santos Óleos a uma criança do sexo masculino a quem dei o nome de Joaquim, que nasceu às duas horas da tarde, do dia dezasseis do mês de Março deste ano, filho legítimo e primeiro do nome de Manuel (...)

(...) Tavares de Campos, proprietário e de Joaquina Rosa D´Amaral, recebidos na Freguesia de Lagos da Beira, o primeiro natural desta freguesia de S. Paio e a segunda da de Meruge, e hoje, ambos moradores na Quinta dos Queijais, freguesia de S. Paio. Neto paterno de Manuel Tavares e de Maria Josefa de Campos, naturais desta dita freguesia e materno de Francisco de Amaral e de Maria Leopoldina, naturais do lugar de Nogueirinha, freguesia de Meruje. Foram padrinhos Joaquim Ribeiro do Amaral, casado, proprietário e D. Amélia Ribeiro do Amaral, solteira, ambos naturais de Lagos da Beira, meus conhecidos, de que dou fé. E para constar lavrei em duplicado o presente assento de Batismo que depois de ser lido e conferido perante os padrinhos, comigo o assinaram. Declaro que como procurador do padrinho, tocou no batizado supra apresentado, Manuel de Amaral, solteiro, proprietário, natural do lugar de Nogueirinha. Era et supra

                                                                                                              O prior Dionísio Garcia Ribeiro




A ARCA COM HISTÓRIAS

A MEMÓRIA É UMA CURIOSA MISTURA DE LEMBRANÇAS E ESQUECIMENTOS

Jorge Luís Borges 

 

Algumas das memórias mais vívidas da minha infância e adolescência, são as que ficaram da minha convivência com a avó Nanda. Era brasileira, nascida no Rio de Janeiro no virar do século, mais precisamente em 1901 e embora tendo vivido a maior parte da sua vida em Portugal, foi profundamente marcada pelas suas raízes cariocas. O seu jeito de falar, não pelo sotaque, que já pouco se notava, mas pelas palavras que só ela usava, o seu sentido de humor e sobretudo a sua alegria de viver revelavam a sua alma carioca. Era uma mulher à frente do seu tempo.

O colorido e o carinho que imprimia a todas as histórias que contava fascinavam a minha imaginação de criança. Aprendi com ela a amar e a admirar aquela figura austera que apenas conhecia de fotografias antigas, o bisavô Joaquim Manuel. Foram muitas as histórias contadas, quais peças de um imenso puzzle dispersas na minha memória.

Muitos anos passaram e o ensejo de juntar as peças desse puzzle foi crescendo. Queria preservar essa memória feita de lembranças e não de esquecimentos, para a minha filha e para os meus netos. 

Em 2009, quando iniciamos as nossas investigações genealógicas, descobrimos que o bisavô Joaquim tinha sido presidente da Associação dos Empregados no Comércio no Rio de Janeiro. Sem grande expectativa enviamos um mail para a Associação e poucos dias depois recebíamos uma resposta. 

A secretária da administração, Iza Barros informava-nos que ia tentar, no que estivesse ao seu alcance, dar o seu contributo. E assim ao longo de várias semanas fomos recebendo mails relatando o andamento da pesquisa. Aquilo que começou como uma gentileza da Iza para com os descendentes de Joaquim Manuel de Campos Amaral, virou um projeto de investigação histórica e ao fim de algum tempo recebíamos um relatório completo da história da associação e os detalhes da ação de Joaquim Manuel de Campos Amaral.

O carinho, dedicação e empenho com que a Iza abraçou este projeto, motivada apenas pelo desejo de ajudar alguém a conhecer as suas origens, fez-nos acreditar que nem sempre são grandes, os gestos que fazem a diferença. É frequentemente no anonimato dos pequenos gestos que contribuímos para a felicidade uns dos outros e para a construção de um mundo melhor.

E assim começou esta aventura. Das pontas soltas das histórias contadas pela avó Nanda, se foi resgatando do esquecimento o bisavô Joaquim Manuel e com ele as minhas raízes da Beira e o reencontro de familiares que as vicissitudes da vida tinham afastado. 

Mas o bichinho da genealogia levou-nos mais longe e foram muitas as histórias resgatadas ao longo dos anos ajudando a moldar a identidade da nossa família. A ARCA COM HISTÓRIAS nasce da vontade de dar forma às histórias herdadas, de as resgatar do silêncio e as transformar em narrativa, num gesto de reconhecimento de quem somos, de onde viemos e do legado silencioso que carregamos.

Como dizia o poeta, (...) procura o sangue do teu sangue o nome do teu nome procura a História já sem vida e a vida feita História procura o tempo e seu sentido sob a torre caída da nossa perdida, perdida memória (ATLÂNTICO; Manuel Alegre 1981)Procurar a história já sem vida de um nome, é resgatar do esquecimento as vidas que não fizeram HistóriaConhece-las é conhecer a nossa história, o sangue do nosso sangue e perceber que somos únicos, o produto de uma magnífica cadeia de eventos, irrepetível, que se perde no tempo. Cada geração é o último elo dessa cadeia e preservar a nossa história é assegurar a continuidade desses elos.

A ARCA COM HISTÓRIAS é um convite a olhar o passado, para melhor entender o presente e deixar às gerações futuras narrativas vivas, humanas, cheias de sentido, revelando as raízes e os fios invisíveis que ligam as gerações que constroem a tessitura maior da nossa História familiar.


À MEMÓRIA DA MINHA AVÓ NANDA

FERNANDA AMÉLIA LEAL SOUTO DE CAMPOS AMARAL





Nasceu no Rio de Janeiro, na freguesia de S. José, no dia 8 de outubro de 1901.


Faleceu em Lisboa no dia 13 de dezembro de 1989.